segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

20 lições sobre a Tirania


Síntese do nosso colega Pedro Miranda.


 
Seguem as "20 lições" que o historiador Timothy Sneyder, historiador, especialista nas questões atinentes ao nacional-socialismo, retirou das tiranias do século XX, propondo-se a um manifesto - que tinha a eleição presidencial norte-americana como pano de fundo, é certo - de alerta e de estímulo à participação política/de cidadania dos mais jovens. 

1. Não obedeças por antecipação -  se mostras predisposição para te adaptar a ordens e a um arbítrio que ainda só se murmura, o poder acabará por cavalgar sobre essa aceitação/resignação/obediência. Resiste ao mal. Exemplo desta obediência por antecipação: a atitude dos austríacos face aos nazis, mostrando que estavam "prontos", "maduros" para serem anexados e obedecerem cegamente.

2. Defende as instituições - estas podem ser/são a grande arma de defesa que o cidadão tem ao seu dispôr. Mas não confiemos demasiado: elas só se mantêm se estivermos vigilantes e se cada um, como cidadão e profissional, não se demitir. Jornais judeus, na Alemanha, afirmaram perentoriamente que apesar de todos os dislates, abusos, promessas terríveis, nunca Hitler as concretizaria, dadas as instituições vigentes. Viu-se.

3. Cuidado com o Estado unipartidário - apoia o sistema multipartidário. Não faltou quem chegasse ao poder e reconfigurasse a diversidade no uno, sem direito a qualquer adversativa. "Vota nas eleições locais e estatais, enquanto ainda é possível fazê-lo. Pondera uma candidatura a um cargo público" (p.23).

4. Responsabiliza-te pela face do mundo - aconteceu, a meio do século XX, amigos, de um dia para o outro, e como se fosse normal, deixarem de falar com amigos, porque estes foram assinalados com uma estrela. Nunca vires os olhos a um teu amigo. Tem atenção a todos os símbolos. Eles podem danificar, excluir, destruir, cercear o espaço público, capturar a democracia.

5. Lembra-te da ética profissional - a deontologia pode salvar. Se nos recordarmos e praticarmos os juramentos, se os levarmos, a eles e à vida, a sério: "se os advogados tivessem seguido a norma de não se permitir nenhuma execução sem prévio julgamento, se os médicos tivessem respeitado a regra de não se proceder de nenhuma cirurgia sem consentimento prévio, se os empresários tivessem defendido a proibição da escravatura, se os burocratas se tivessem recusado a despachar trabalho administrativo que envolvesse homicídio, o regime nazi teria encontrado muito mais obstáculos ao procurar levar a cabo as atrocidades pelas quais o lembramos" (pp.32-33)

6. Fica alerta com os paramilitares - grupos de capangas, de seguranças privados, rufias foram intimidando, com inusitada violência, adversários políticos dos nazis, assim contribuindo, fortemente também, para estes acederem ao poder (coagindo muitos dos demais cidadãos, ainda que chegando ao poder, em grande medida, ainda, de forma democrática). Neste ponto, portanto, Snyder olha para o papel das SS e das SA, mas fala ainda dos grupos que nos comícios de Trump foram calando - e despachando dos pavilhões - vozes dissonantes (perante o gáudio, em jeito de reallity show do próprio personagem central do comício). Muitos verão aqui exagero, ou mesmo ilegitimidade, na analogia; mas o discurso tem por objectivo ligar todos os alertas. Os sinais da atualidade são preocupantes deveras - eis a mensagem.

7. Sê prudente se tiveres de andar armado -  olha para quantos milhares mataram polícias ao serviço dos diferentes totalitarismos. Está pronto para te recusares; sê capaz de dizer não. Nenhuma burocracia te isenta da responsabilidade individual dos teus actos.

8. Opõe-te - é preciso correr o risco de ir contra o espírito do tempo, quando neste a hybris atravessa os espíritos. O fascismo e o comunismo foram produtos da reacção à globalização, oferecendo como soluções miríficas o "tudo pela nação" (contra a qual estaria em curso uma "conspiração": "um legado intelectual intacto cuja relevância vai crescendo a cada dia que passa") e "o monopólio da razão que faria a sociedade avançar na direcção de uma certa ideia de futuro fundamentada por supostas leis imutáveis da história" (numa sociedade, numa história que desaguaria, "inevitavelmente", no "comunismo"). Hoje, cumpre, de novo, não embarcar nos cantos de sereia que conduzem a lado algum - ou, mais rigorosamente, a um inferno terrestre.

9. Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

10- Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada.


11. Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo À leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

12. Faz contacto visual e conversa de circunstância - nos regimes repressivos, no séc.XX, o comportamento de um vizinho - afetuoso ou indiferente - fez a diferença no cimento que permitiu alargar a força da comunidade, ou enfraquecer os laços perante o regime, e, portanto, constituíram-se como passos para mudar, ou reforçar, respectivamente, o status quo

13. Pratica uma política corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá. Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua companhia" (p.67)

14. Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece" (p.69)

15.Contribui para boas causas - "toma parte ativa em organizações, sejam elas de cariz político ou não, que expressem a tua perspectiva da vida. Escolhe uma ou duas instituições de caridade e decide-te pelo pagamento automático de donativos. Assim, terás feito uma escolha livre que favorece a sociedade civil e ajuda os outros a promover o bem comum (...) No século XX, todos os inimigos de peso da liberdade revelaram-se hostis para com as organizações não governamentais, instituições de caridade e afins. Os comunistas exigiam o registo oficial de todas estas organizações e transformavam-nas em organismos de controlo político. Os fascistas criaram o que vieram depois a designar sistema 'corporativista', no qual todas as atividades humanas eram enquadradas de acordo com um desígnio particular, sujeitas ao jugo do Estado unipartidário. Os regimes autoritários da atualidade (Índia, Turquia, Rússia) são, do mesmo modo, profundamente alérgicos à ideia de associações livres e de organizações não governamentais" (pp.75 e 77)

16. Aprende com os teus semelhantes de outros países - os observadores/jornalistas de Leste foram muito céleres a vaticinar a vitória de Trump, ao verificarem como decorria a campanha. Haviam-se habituado ao mesmo tipo de propaganda por parte dos russos, e notavam como os jornais norte-americanos não desmascaravam automaticamente cada mentira dita pelo então candidato, sentenciando, incessantemente, a sua derrota no estado seguinte (ainda no interior das primárias dos Republicanos). A experiência de nacionais de outros países podem ajudar-nos a ler a nossa própria realidade nacional. E isto, nota Snyder, quando "a história, que durante algum tempo pareceu rumar de oeste para leste, parece agora deslocar-se de leste para oeste. Tudo o que acontece aqui parece acontecer primeiro lá" (p.81). A leste, Rússia, Polónia, Hungria, seus regimes e lideranças.

17. Fica atento a palavras perigosas - a utilização de vocábulos, nos políticos, não raro, não é feita ao acaso. Pretende-se reconfigurar uma realidade, ou paisagem política, com base, também, nas palavras. Atenção, reitere-se, a palavras como "extremismo" ou "terrorismo" e escrutine-se da sua consistência/adesão à realidade. E onde, eventualmente, nos querem levar.

18. Mantém-te calmo quando o impensável acontecer - não deixes que a emoção violenta te leve a uma resposta (política) cega, que o fervor patriótico te manipule (para uma guerra, por exemplo). Contemplando o incêndio no Reichstag, Hitler imediatamente captou a possibilidade de tudo mudar na política interna (na caça às bruxas que a oportunidade se lhe oferecia; ainda hoje se desconhece a autoria do incêndio, mas, no fundo, tal acaba, para o caso, por ser indiferente). "Depois do incêndio no Reichstag, Hannah Arendt escreveu que "deixara de acreditar que uma pessoa pode simplesmente ficar na sua posição de espectadora" (p.92)

19. Sê patriota - e isso significa, por exemplo, pagares os teus impostos. Ser patriota é diferente de ser nacionalista, não significa rejeitar e ressentir face aos demais, mas partilhar "valores universais, padrões pelos quais ele avalia o estado da sua nação, desejando sempre que o seu bem, ainda que não deixe também de desejar que estivesse melhor" (p.95) 

20. Sê o mais corajoso possível - "se nenhum de nós estiver preparado para morrer pela liberdade, então todos nós morreremos sob o jugo da tirania" (p.97)

[Timothy SnyderSobre a tirania. Vinte lições do século XX, Relógio d'Água, 2017

Sem comentários:

A IMPORTÂNCIA DA LEITURA

Seguidores